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Por José Graziano, diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO)*

Uma das singularidades desta crise global é que apenas voltar a crescer não é mais uma resposta suficiente. Porque crescer não é mais sinônimo de gerar empregos, especialmente para os jovens.

O crescimento agora tem de ser realizado em três dimensões: econômica, social e também ambiental. Ou seja, tem de ser sustentável. Essa é a nova alavanca crucial do nosso tempo, consagrada pela Agenda 2030 e pelos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), assinados em 2015 nas Nações Unidas por 195 países.

Só assim é possível enfrentar o encadeamento de fatores nos quais desastres climáticos recorrentes potencializam gargalos econômicos e radicalizam fraturas sociais, frequentemente envelopados em guerras regionais ou étnicas, girando uma manivela de interações descontroladas.

Um dos pontos mais preocupantes deste novo contexto é a crescente escassez de água. Na década de 1980 houve uma média de dez secas no mundo com prejuízos desastrosos. Nos últimos anos, elas se duplicaram, entremeadas não raro a disputas geopolíticas violentas – como agora no Sudão do Sul, rico em petróleo, onde 100 mil pessoas não têm nada para comer, 1 milhão estão à beira da fome e 5 milhões vivem em estado de insegurança alimentar. Isso representa mais de 40% da população.

A mesma calamidade humanitária que assola o Sudão do Sul neste momento atingiu o Iêmen no ano passado, com manchetes idênticas. E a mesma seca que salga a tragédia sudanesa deixou a Somália à beira de um abismo de fome, seis anos atrás, quando mais de 250 mil pessoas — metade delas crianças com menos de 5 anos — morreram de desnutrição no país.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas estima que um bilhão de pessoas em regiões secas poderão enfrentar escassez explosiva de água num futuro próximo. Zonas rurais do Mediterrâneo e África Austral com índices elevados de exclusão e fome estão no monitor das mais afetadas.

Não se pode evitar uma seca, mas pode-se impedir que a seca se transforme em fome. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, cerca de 663 milhões de pessoas no mundo vivem atualmente sem acesso a água potável perto de suas casas.

Garantir o acesso à água é vital, especialmente a agricultores pobres, que compõem a maior fatia das 800 milhões de pessoas enredadas atualmente na rotina da fome em todo o mundo. Tal suprimento requer investimentos, No Brasil, por exemplo, muitas famílias pobres de áreas secas têm se beneficiado nos últimos anos do estabelecimento de cisternas em suas casas para armazenar água de chuva.

Desde 2003, já foram entregues pelo governo federal cerca de 1,2 milhão de cisternas (Programa Cisternas), com capacidade total de armazenamento de 20 bilhões de litros. O custo de instalação de uma cisterna é baixo, cerca de R$ 3 mil, e o sistema permite reservar água suficiente para manter uma família de cinco pessoas durante oito meses de estiagem.

Vale recordar a experiência de Guaribas, no Piauí, cidade que marcou o início do Programa Fome Zero. A falta de água potável gerava um quadro de doenças constantes, dificuldade em produzir alimentos e um enorme peso, literalmente, na cabeça das mulheres que carregavam latas de água durante horas de caminhada. Essa rotina diária era quebrada em épocas de eleições pelos carros-pipa. As cisternas proporcionaram independência, inclusive política, àquelas famílias.

As cisternas e outras tecnologias sociais voltadas para os sertanejos do Semiárido tornaram-se políticas públicas para inclusão social, inclusão produtiva rural e de combate à extrema pobreza.

O leque de medidas acionável pelos governos não se esgota aí. Inclui também, por exemplo, seleção adequada de lavouras e sementes e implantação de serviços locais de meteorologia — salvaguarda inexistente em cerca de 40% das nações do mundo.

Sem equacionar o abastecimento de água e de alimentos em cinturões conflagrados pela pobreza, ondas recorrentes de instabilidade retornarão, com as consequências que os atuais fluxos de refugiados têm produzido num mundo de baixo crescimento, comércio anêmico, emprego precário e xenofobia contagiosa.

Embora acumule a metade da água doce do mundo a América Latina sofre com o problema. Dos dez países do planeta mais atingidos por eventos climáticos extremos entre 1996-2015, quatro estão aqui: Honduras, Haiti, Nicarágua e Guatemala.

Na Bolívia, por exemplo, a FAO assessora a contratação de um financiamento do Fundo Verde das Nações Unidas para o programa nacional “Mi Riego” (Minha Irrigação). O Fundo Verde contempla intervenções de grande escala, mas também ações locais. E a FAO decidiu incluir em todos os projetos que formula para o Fundo Verde um componente social, a fim de garantir o acesso à agua potável para as famílias rurais, e não apenas para cuidar da água para irrigação.

A agricultura é, de fato, um elemento fundamental da equação, pois responde por cerca de 70% do consumo de água doce do mundo, e também contribui para a poluição das águas devido ao uso de pesticidas e produtos químicos. É preciso promover métodos para que a agricultura utilize menos água e de forma mais eficiente.

Mas não podemos, das milhões de famílias que não têm acesso à água de beber, tirar um direito humano e componente fundamental da segurança alimentar.

*Artigo originalmente publicado no Valor Econômico, em 28 de março de 2017

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